Redação para concurso

Estrutura da dissertação argumentativa: um tema real montado do zero

Veja a estrutura da dissertação argumentativa funcionando: cada parágrafo escrito na sua frente, frase por frase, com a função de cada uma explicada.

12 min de leitura · atualizado em 7 de setembro de 2026 · por Equipe Edital Hoje

Folha de redação pautada vista de cima, com quatro blocos de texto marcados em cores diferentes e setas curvas ligando um bloco ao seguinte
A estrutura da dissertação argumentativa em quatro blocos: cada cor é uma tarefa diferente na folha

Você escreve bem. Sabe vírgula, sabe concordância, tem repertório guardado. Mesmo assim a nota fica no meio da tabela e o comentário do corretor se repete: texto sem progressão, ideias soltas, faltou posicionamento. Não é o português que está faltando. É estrutura.

Aqui você não vai ler a definição de dissertação argumentativa. Vai ver uma sendo montada. Escolhi um tema no estilo das bancas de concurso — os limites da liberdade de expressão diante da desinformação — e daqui em diante cada bloco nasce na sua frente: introdução, dois desenvolvimentos, conclusão. Parágrafo escrito, e ao lado a função de cada frase.

Por que a redação parece solta mesmo bem escrita

O corretor lê os quatro parágrafos e faz uma pergunta só: o que essa pessoa está defendendo? Se ele precisa reler para descobrir, a nota já caiu — não por erro de língua, mas porque o texto não conduziu ninguém a lugar nenhum.

Estrutura não é fôrma de cursinho. É divisão de tarefas. A introdução entrega a tese. Os desenvolvimentos provam a tese. A conclusão fecha a tese e, quando a banca pede, propõe. Parágrafo que não cumpre a tarefa dele é enchimento, por mais bonito que soe. Se você está começando agora, abra antes o guia de redação para concurso e volte para cá.

Folha de redação pautada vista de cima, com quatro blocos de texto marcados em cores diferentes e setas curvas ligando um bloco ao seguinte
A estrutura da dissertação argumentativa em quatro blocos: cada cor é uma tarefa diferente na folha

O tema que conduz este artigo do começo ao fim: "A desinformação nas redes sociais e os limites da liberdade de expressão no Brasil". Guarde o comando: ele decide se a conclusão leva proposta de intervenção.

Os quatro blocos e o que cada um precisa entregar

Antes da primeira palavra, decida o serviço de cada parágrafo. Em uma folha de 25 a 30 linhas, a divisão que funciona é esta:

  • Introdução (4 a 6 linhas) — situa o tema, apresenta o conflito e crava a tese. Termina anunciando os dois caminhos que você vai percorrer.
  • Desenvolvimento 1 (7 a 9 linhas) — o argumento mais forte. Abre com tópico frasal, explica o mecanismo, exemplifica e amarra de volta na tese.
  • Desenvolvimento 2 (7 a 9 linhas) — outro ângulo, não a mesma ideia com outras palavras. Marca a relação com o parágrafo anterior já na abertura.
  • Conclusão (4 a 6 linhas) — retoma a tese com palavras novas e, se o comando pedir, propõe com agente, ação, meio e finalidade.

A soma dá exatamente o espaço da folha. Essa contabilidade evita o desastre mais comum da prova: desenvolvimento gigante e conclusão espremida em duas linhas. Se você costuma estourar as linhas, veja como distribuir o rascunho na folha de redação linha a linha.

Introdução: três movimentos, uma tese

A introdução responde a três perguntas em sequência: do que se trata, qual é o problema, o que você defende. Nada de "desde os primórdios da humanidade".

Introdução escrita para o tema
A circulação de notícias falsas deixou de ser um incidente de internet e passou a interferir em eleições, campanhas de vacinação e decisões judiciais no Brasil. Diante disso, cresce a defesa de regular as plataformas digitais, contestada por quem enxerga aí um risco à liberdade de expressão. O impasse, porém, é falso: a liberdade de expressão não protege a mentira organizada, e cabe ao poder público responsabilizar quem lucra com ela. Essa responsabilização passa por dois movimentos — transparência sobre o impulsionamento pago e educação midiática desde a escola.

A função de cada frase, que se repete em qualquer tema:

  1. Frase 1 — contexto. Ancora o tema em fatos do presente. Existe para o corretor ver que você entendeu o assunto, e só.
  2. Frase 2 — o conflito. Mostra que há dois lados. Sem conflito não existe argumentação.
  3. Frase 3 — a tese. A linha mais importante do texto. Toma partido com verbo no presente, sem "talvez" nem "cada um tem sua opinião".
  4. Frase 4 — o roteiro. Anuncia os dois argumentos na ordem em que virão. Amarra o texto antes de ele existir.
Bússola estilizada com a agulha apontando firme para um pequeno bloco de texto destacado, cercada por linhas de escrita difusas
A tese é a agulha da bússola: sem ela, a estrutura da dissertação argumentativa gira sem direção
Antes

A desinformação é um tema muito debatido atualmente na sociedade brasileira. Com o avanço da tecnologia e das redes sociais, milhares de notícias falsas circulam todos os dias. Isso gera diversos problemas e preocupa a população. Portanto, é preciso refletir sobre esse importante assunto.

Depois

A circulação de notícias falsas já interferiu em eleições e em campanhas de vacinação no Brasil, o que reacendeu o debate sobre regular as plataformas digitais. A liberdade de expressão, no entanto, não protege a mentira organizada: cabe ao poder público responsabilizar quem lucra com ela, por meio da transparência sobre o impulsionamento pago e da educação midiática na escola.

O que mudou: O primeiro parágrafo descreve e evapora: "gera problemas", "preocupa", "é preciso refletir". O corretor chega ao fim sem saber o que você defende — e texto sem tese não tem o que provar depois. No segundo, a segunda linha crava o lado e a última entrega os dois caminhos do desenvolvimento. Mesmo número de linhas, função completamente diferente.

Se a sua tese ainda sai vaga, o problema costuma estar na leitura do comando. Treine antes a leitura do comando da proposta e volte para a estrutura. Para aprofundar só os dois parágrafos das pontas, há mais modelos em introdução e conclusão passo a passo.

Desenvolvimento 1: o argumento que sustenta a tese

Comece pelo argumento mais forte: o corretor ainda tem paciência. E abra o parágrafo com uma frase que afirme, não que descreva.

O tópico frasal é a promessa do parágrafo
A primeira frase do desenvolvimento é a que o corretor lê com atenção total. Escreva-a como se fosse a única frase do parágrafo. Teste rápido: leia em sequência só os tópicos frasais dos seus dois desenvolvimentos. Se as duas frases juntas já reproduzem a sua tese, o texto tem estrutura. Se soam como assuntos diferentes, um parágrafo está fora do lugar.
Esquema em três etapas ligadas por setas: uma frase-guia destacada no topo, um bloco maior de argumento no meio e uma frase curta de fechamento embaixo
Como o tópico frasal comanda o parágrafo: frase-guia, argumento e fechamento que volta à tese
Desenvolvimento 1 escrito para o tema
O primeiro obstáculo ao combate à desinformação é econômico: mentir dá lucro. As plataformas remuneram o conteúdo pelo tempo de atenção que ele retém, e a indignação retém mais do que a informação verificada. Assim, um perfil que fabrica uma denúncia falsa sobre uma vacina alcança, com poucos reais de impulsionamento, um público que nenhum boletim oficial alcança. Enquanto quem paga por esse impulso permanecer anônimo, punir o autor de cada postagem é enxugar gelo. Obrigar as plataformas a tornar público quem financiou cada conteúdo pago, portanto, atinge o problema onde ele nasce: no dinheiro, não na opinião.
  1. Frase 1 — tópico frasal. Recorta o ângulo ("é econômico") e já toma posição.
  2. Frase 2 — o mecanismo. Explica por que a afirmação se sustenta. Sem ela, o parágrafo vira palpite.
  3. Frase 3 — o concreto. Transforma o mecanismo em cena: um dado, um caso, uma comparação.
  4. Frase 4 — a objeção. Antecipa o contra-argumento óbvio e responde a ele.
  5. Frase 5 — o fechamento. Costura de volta na tese e prepara o gancho do próximo parágrafo.
O parágrafo que só descreve
"Atualmente, milhões de brasileiros usam redes sociais diariamente. O WhatsApp e o Instagram fazem parte da rotina das famílias. Muitas informações falsas circulam nesses aplicativos." Está tudo correto e não vale nada. Descrever não é argumentar. Um parágrafo argumenta quando responde "por que isso sustenta o que eu defendo?". Risque uma frase e veja se o texto perdeu força; se não perdeu, era enchimento. É uma das falhas listadas em erros que derrubam a nota da redação.

Desenvolvimento 2: o ângulo que o primeiro não cobriu

O erro clássico aqui é repetir o primeiro argumento com sinônimos. O segundo desenvolvimento entra por outra porta — outro agente, outra causa, outra esfera — e anuncia a relação com o parágrafo anterior já na primeira palavra.

Desenvolvimento 2 escrito para o tema
Atacar o dinheiro, porém, não basta enquanto o leitor continuar sendo presa fácil. A escola brasileira ensina a interpretar um poema, mas raramente ensina a checar quem publicou uma imagem, quando e com qual interesse. O resultado aparece na rotina: o mesmo estudante que identifica ironia em Machado de Assis repassa no grupo da família um áudio sem origem. Incluir educação midiática no currículo — checagem de fonte, leitura de dado, reconhecimento de imagem manipulada — forma um leitor que reduz o alcance da mentira antes que ela precise ser removida. Regular apaga incêndios; educar diminui o material inflamável.

Duas coisas fazem esse parágrafo funcionar: o "porém" da abertura, que avisa o corretor de que vem complemento e não repetição, e a mudança de esfera — da plataforma para a escola, sem sair da tese.

Repare também que o repertório não é citação decorada colada no meio do texto: Machado de Assis entra como parte do raciocínio e sai. É assim que se usa repertório sem parecer enfeite.

Conclusão: retomada, proposta e ponto final

Conclusão não é resumo: é a hora de mostrar que a tese se sustentou. Quando o comando pede intervenção, ela vem com quatro elementos: quem faz, o que faz, como faz e para quê.

Conclusão com proposta de intervenção
A mentira organizada, portanto, não é efeito colateral da liberdade de expressão: é um negócio que se aproveita dela. Cabe ao poder público, em articulação com as plataformas, exigir a identificação pública de todo conteúdo impulsionado, por meio de um registro aberto e auditável, a fim de retirar o anonimato de quem financia a desinformação. Ao sistema de ensino cabe inserir a educação midiática nos anos finais do ensino fundamental, por meio da formação continuada de professores, para que o combate à mentira comece antes da remoção da postagem.
  1. Retomada. A primeira frase reafirma a tese com palavras novas. Repetir a introdução sinaliza que o texto não andou.
  2. Agente. "Cabe ao poder público", "ao sistema de ensino". Nada de "a sociedade deve" — sociedade não executa nada.
  3. Ação e meio. O que fazer e por qual instrumento. Sem o meio, a proposta é desejo.
  4. Finalidade. O "a fim de" liga a ação de volta ao problema que a introdução levantou.
Esquema do parágrafo final com uma seta curva voltando ao início do texto e quatro peças de encaixe alinhadas representando agente, ação, meio e finalidade
A conclusão retoma a tese e encaixa as quatro peças da proposta de intervenção

Uma proposta por parágrafo basta. Duas bem construídas valem mais que cinco sem agente nem meio.

E quando a banca pede só "texto dissertativo", sem proposta?

Boa parte das provas de concurso não pede intervenção. O comando diz "redija um texto dissertativo" ou "disserte sobre", e é isso. Nesse caso, propor não é bônus: é desvio de comando, e ainda gasta linhas que fariam falta no argumento.

A mudança é cirúrgica e atinge só o último parágrafo. Introdução e desenvolvimentos ficam idênticos; a conclusão troca o par agente–ação por síntese e projeção:

A mesma conclusão, sem proposta de intervenção
A mentira organizada, portanto, não é efeito colateral da liberdade de expressão: é um negócio que se aproveita dela. Enquanto o financiamento do impulsionamento permanecer opaco e a leitura crítica seguir fora da sala de aula, cada nova tecnologia apenas barateará o custo de enganar. Reconhecer isso é o que separa o debate sobre censura do debate sobre responsabilidade.

Três linhas, sem imperativo, sem "o governo deve". Ela conclui por consequência: mostra o que acontece se nada mudar. É o fechamento esperado quando a banca quer análise, não plano de ação.

  • "Proposta de intervenção", "apresente soluções", "indique medidas" — conclusão com agente, ação, meio e finalidade.
  • "Disserte", "analise", "posicione-se", "texto dissertativo" — conclusão de síntese e projeção, sem propor.
  • Perguntas numeradas no enunciado — cada pergunta vira um bloco, na ordem em que foi feita.

Isso muda por banca e por cargo. As provas de questões da FGV costumam trazer texto motivador e comando bem delimitado; a discursiva do Cebraspe tende a fatiar o enunciado em itens que precisam ser respondidos um a um. Confira sempre o edital do seu concurso: o comando manda mais do que qualquer modelo pronto.

Como fixar a estrutura sem escrever dez textos por semana

Escrever texto inteiro todo dia é insustentável e nem é o mais eficiente. A estrutura se fixa em pedaços:

  1. Só tese. Pegue cinco temas e escreva apenas a frase da tese de cada um. Cinco minutos, e é o que mais rende.
  2. Só tópicos frasais. Para os mesmos temas, escreva as duas frases de abertura dos desenvolvimentos. Se não conversam com a tese, corrija ali.
  3. Um parágrafo cronometrado. Sete minutos para um desenvolvimento com as cinco funções: tópico, mecanismo, exemplo, objeção, fechamento.
  4. Texto inteiro, uma vez por semana, no tempo real da prova, comparado com um modelo comentado.

No texto inteiro o inimigo passa a ser o relógio: veja como encaixar rascunho e passagem a limpo em escrever a redação em 30 minutos. Para a comparação do passo 4, use um texto já corrigido, como o de redação nota máxima comentada frase a frase.

Se ainda não sabe qual banca vai enfrentar, comece pelos concursos com redação abertos e escolha o alvo antes do método. Depois é volume de treino com correção — dá para montar essa rotina junto com as objetivas e treinar com questões reais de concurso.

Perguntas frequentes

qual é a estrutura da dissertação argumentativa

São quatro parágrafos com funções distintas: introdução que contextualiza e crava a tese; dois desenvolvimentos, cada um com um argumento próprio aberto por tópico frasal; e conclusão que retoma a tese e, se o comando pedir, propõe intervenção. O que define a estrutura é a tarefa de cada bloco.

quantos parágrafos deve ter a redação de concurso

Quatro é o padrão seguro em folhas de 25 a 30 linhas. Em provas de 40 linhas ou mais cabe um terceiro desenvolvimento, desde que traga argumento novo. Menos de quatro parágrafos costuma indicar argumento único. Confira o número de linhas no edital do seu concurso.

o que é tópico frasal

É a primeira frase de um parágrafo de desenvolvimento, a que anuncia o argumento defendido ali. Ela afirma, não descreve. Um bom teste: leia apenas os tópicos frasais dos dois desenvolvimentos em sequência. Se juntos reproduzem a sua tese, o texto está estruturado.

onde fica a tese na redação

No fim da introdução, normalmente na terceira ou quarta linha. Ela toma partido com verbo no presente, sem expressões de fuga como talvez ou seria interessante. Logo depois, anuncie os dois argumentos que virão: esse anúncio amarra o texto antes de ele ser escrito.

preciso escrever proposta de intervenção em concurso

Só se o comando pedir. Enunciados com apresente soluções ou indique medidas exigem agente, ação, meio e finalidade. Comandos com disserte, analise ou redija um texto dissertativo pedem conclusão de síntese e projeção. Propor onde não foi pedido gasta linhas e afasta o texto do comando.

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Conteúdo original da Equipe Edital Hoje, escrito para concursos públicos brasileiros. Critérios de correção variam por banca e por edital: confira sempre o edital do seu concurso. Última revisão em 7 de setembro de 2026.