
Você escreveu trinta linhas, revisou duas vezes, entregou confiante — e o resultado saiu com um zero redondo do lado do seu nome. Quase nunca é falta de talento. Na maioria das vezes é uma regra de duas linhas do edital que ninguém leu com calma: o comando pedia um relatório e você entregou uma dissertação, a folha ficou com a sua assinatura no rodapé, o texto parou na linha 17 quando o mínimo era 20.
Aqui vão duas listas separadas, porque são problemas diferentes: o que anula a sua redação de verdade e o que não anula, mas custa os décimos que decidem a vaga. Contra o primeiro grupo você se defende com checagem, e ela leva segundos. No fim, um checklist de 90 segundos para rodar com a folha na mão, antes de levantar da cadeira.
Zerar e perder ponto não são a mesma coisa

Zerar é uma decisão binária. O corretor nem chega a avaliar o que você defendeu: ele bate numa regra formal, marca a anulação e passa para a próxima folha. Perder ponto é outra história — ali ele leu, entendeu, achou o argumento raso e descontou. Um caso é sobre forma; o outro é sobre conteúdo.
A diferença prática importa porque as defesas são diferentes. Contra a anulação você se protege conferindo a folha, e isso leva segundos. Contra a perda de nota você se protege escrevendo muito, e isso leva semanas. As duas coisas cabem na preparação, mas só uma resolve na mesa da prova. Se você ainda está montando a base, comece pelo guia de redação para concurso.
Os erros que zeram a redação de verdade
Todos os itens desta lista aparecem, com uma redação ou outra, na parte de anulação dos editais. Nenhum deles tem a ver com talento para escrever. Para cada um, a cena como ela acontece na prova e a checagem de um minuto que evita o zero.
1. Fuga total ao tema
O tema era o impacto do trabalho remoto na prestação de serviços públicos. O candidato leu a palavra "trabalho", lembrou de tudo que tinha estudado sobre desemprego e escreveu quatro parágrafos redondos sobre geração de emprego no Brasil. Texto limpo, repertório bom, conclusão com proposta. Zero. A banca não pediu emprego: pediu trabalho remoto, dentro do serviço público.
Checagem de um minuto: no rascunho, circule o substantivo principal do tema e o recorte que vem colado nele (o "onde" e o "para quem"). Depois leia só a sua tese e pergunte se ela contém os dois. Se a tese continua fazendo sentido sem o recorte, você saiu do tema. O passo a passo está em como não fugir do tema da redação.
2. Texto fora do gênero pedido
O comando dizia "redija um relatório técnico dirigido ao secretário de administração". O candidato entregou uma dissertação escolar impecável: tese, dois argumentos, proposta de intervenção. Fora do gênero. Em provas discursivas de carreiras administrativas e jurídicas o pedido pode ser parecer, ofício, relatório, peça ou dissertação — e cada um tem forma própria, com partes na ordem que a banca descreve.
Checagem de um minuto: leia o comando duas vezes e sublinhe o verbo. "Disserte", "redija um parecer", "elabore um relatório" mandam mais do que o tema. Se o gênero for dissertativo-argumentativo, siga a estrutura da dissertação argumentativa; se for outro, monte o texto na forma que o próprio comando descreve, na ordem em que ele descreve.
3. Identificação na folha definitiva

É o erro mais doloroso, porque acontece justamente com quem escreveu bem. A pessoa termina, respira aliviada e assina embaixo, por hábito de vida inteira. Ou escreve o nome no alto da folha definitiva. Ou fecha com "agradeço a atenção do corretor". Ou desenha um símbolo no canto para "marcar" a folha. Tudo isso conta como marca identificadora, e a folha vai para a anulação sem que ninguém leia o mérito.
Checagem de um minuto: passe o olho pelos quatro cantos da folha definitiva e pelas duas últimas linhas do texto. Procure por nome, assinatura, iniciais, número de inscrição fora do campo próprio, desenho, símbolo e frase dirigida a quem corrige. A folha definitiva carrega só o seu texto — a sua identificação já está no campo destacável que o fiscal cuida.
4. Menos linhas que o mínimo

A folha pedia no mínimo 20 e no máximo 30 linhas. O candidato parou na 17 porque achou que já tinha dito tudo. Texto abaixo do mínimo costuma ser anulado; texto acima do máximo costuma ter o excedente desconsiderado, e é aí que a conclusão inteira some da correção. São dois números diferentes, com efeitos diferentes: confira no edital do seu concurso quais valem para a sua prova.
Checagem de um minuto: antes de começar, marque no rascunho com um traço onde cai a linha mínima e onde cai a máxima. Escreva mirando o meio da faixa, nunca a borda. Se sobrou espaço no fim, não invente um parágrafo novo: desenvolva melhor o argumento que ficou mais raso. O uso inteligente do espaço está em como usar a folha de redação e o rascunho.
5. Letra ilegível
Letra ilegível não é letra feia. É a letra que faz o corretor parar, voltar e adivinhar. Quando ele não consegue ler trechos inteiros, a redação pode ser anulada por ilegibilidade — e, antes disso, cada palavra decifrada com esforço já vira desconto silencioso.
Checagem de um minuto: escreva as três primeiras linhas devagar, de propósito. É esse ritmo que dita o resto da folha. E entenda a causa: se a sua letra desanda no fim, o problema não é caligrafia, é planejamento. Chegar à folha definitiva com quinze minutos de sobra resolve — a divisão de tempo está em como escrever a redação em 30 minutos.
6. Cópia dos textos de apoio
Os textos motivadores estão ali para você pensar, não para preencher linha. Transcrever trechos, mesmo trocando uma palavra ou outra, esvazia a redação: as linhas copiadas são desconsideradas e, se o que sobrar ficar abaixo do mínimo, você cai no erro anterior sem perceber. Cópia extensa aparece como causa direta de anulação em muitos editais.
Checagem de um minuto: depois de ler os textos de apoio, vire a folha e escreva a ideia deles com as suas palavras, em uma frase só. Use o dado e o conceito, nunca a frase pronta. Ter repertório próprio resolve isso de vez, e repertório para redação de concurso mostra como montar um estoque de referências que cabe na memória.
7. Folha em branco, texto a lápis ou fora do espaço
Folha em branco é zero óbvio, mas raramente é escolha: quase sempre é gestão de tempo que estourou. Já o texto escrito a lápis, ou fora do espaço demarcado, ou deixado no rascunho enquanto a folha definitiva volta vazia, é zero por descuido. Muitas bancas exigem caneta esferográfica de tinta azul ou preta, indelével, e tratam o resto como não escrito.
Checagem de um minuto: confira a cor e o tipo de caneta no edital antes de sair de casa e leve duas. Comece a passar a limpo com tempo folgado: um texto mediano e completo vale mais que um texto brilhante pela metade. Antes de levantar, confirme que a redação está na folha definitiva.
O que não zera, mas derruba muito a nota
Nenhum item desta segunda lista anula nada. Eles só fazem você terminar a três décimos da vaga. Aqui não adianta checagem de última hora: é treino.
Tangenciar o tema
Tangenciar é passar de raspão. Você fala do assunto certo, mas ignora o recorte. Tema sobre segurança da informação no setor público e o texto gira em torno de privacidade nas redes sociais: dá para ver a ligação, então não é fuga, mas cada parágrafo que não toca o recorte custa nota. O teste é cruel e funciona: se o seu texto serviria igualzinho para outro tema do mesmo assunto, ele está tangenciando.
Argumento que não sai do lugar
A informatização é importante para o serviço público. Ela traz muitos benefícios para a população e melhora bastante o atendimento prestado. Por isso, é fundamental que o Estado invista cada vez mais em tecnologia.
A informatização encurta a fila porque tira o cidadão do balcão: um pedido de segunda via que exigia deslocamento, senha e uma manhã inteira passa a caber num formulário eletrônico, e o servidor que atendia essa demanda repetitiva é realocado para os casos que exigem análise. O ganho não é o computador — é o tempo humano liberado.
O que mudou: O primeiro parágrafo diz a mesma coisa três vezes com palavras diferentes: importante, benefícios, fundamental. O segundo escolhe um caso concreto, mostra o mecanismo (por que o benefício acontece) e fecha com a frase que amarra o raciocínio. Mesmo tamanho, outro peso na correção.
Clichê de abertura e de fechamento
"Desde os primórdios da humanidade", "na sociedade atual em que vivemos", "diante do exposto, conclui-se que". Quem corrige lê essas frases dezenas de vezes por dia e elas anunciam, logo na primeira linha, que o texto vai ser genérico. Comece pelo recorte do tema e feche pela consequência prática: como escrever introdução e conclusão traz aberturas que não soam decoradas.
O mesmo erro de português repetido
Um erro de crase isolado quase não pesa. O mesmo erro oito vezes em trinta linhas vira padrão, e padrão a banca desconta com peso. Vale para vírgula entre sujeito e verbo, concordância com o verbo haver, pronome no começo da frase. Você não precisa dominar toda a gramática de uma vez: precisa saber quais são os seus três erros recorrentes e vigiar esses três. Comparar o seu texto com uma redação nota máxima comentada costuma escancarar quais são.
Checklist de 90 segundos antes de entregar

Sobraram dois minutos depois de passar a limpo. Não gaste esse tempo relendo o texto inteiro atrás de beleza: você não vai reescrever nada. Gaste caçando anulação, o único estrago irreversível. Seis paradas de quinze segundos.
15s — Conte as linhas escritas: está dentro do mínimo e do máximo da folha?
15s — O comando pedia dissertação, parecer, relatório ou ofício? O que está na folha é isso mesmo?
15s — Leia só a sua tese: ela carrega as palavras-chave do tema com o recorte pedido?
15s — Passe o olho procurando frase copiada dos textos de apoio.
15s — Tudo a caneta, dentro das linhas, na folha definitiva e não no rascunho?
Se algum item falhar e ainda houver tempo de prova, conserte nesta ordem: gênero, linhas, identificação. Os dois primeiros você resolve escrevendo mais um trecho; o terceiro, uma vez feito, não tem conserto — por isso ele é o que mais merece cuidado antes de você começar a escrever, e não depois.
Perguntas frequentes
o que zera a redação em concurso público
Zeram a redação a fuga total ao tema, o texto fora do gênero pedido no comando, qualquer marca de identificação na folha definitiva, o número de linhas abaixo do mínimo, a letra ilegível, a cópia extensa dos textos de apoio e a folha em branco ou a lápis quando a banca exige caneta. Confira no edital do seu concurso.
assinar a redação zera a prova
Na maioria dos editais, sim. Assinatura, nome, iniciais, número de inscrição fora do campo próprio, desenho ou frase dirigida a quem corrige contam como identificação e levam a folha à anulação, por melhor que seja o texto. A folha definitiva deve conter apenas a redação. Confira no edital do seu concurso como a regra está escrita.
escrever menos que o mínimo de linhas zera a redação
Em regra, sim: texto abaixo do número mínimo de linhas costuma receber nota zero. Passar do máximo normalmente não anula, mas o excedente é desconsiderado, e sua conclusão pode ficar de fora da correção. Escreva mirando o meio da faixa e marque no rascunho onde ficam os dois limites antes de começar.
fuga ao tema e tangenciamento são a mesma coisa
Não são. Fuga é escrever sobre outro assunto, e isso anula. Tangenciamento é falar do assunto certo ignorando o recorte pedido: não anula, mas derruba bastante a nota, porque boa parte do texto não responde ao comando. O teste rápido é verificar se o seu texto serviria igual para outro tema do mesmo assunto.
redação escrita a lápis é anulada
Costuma ser. A maioria dos editais exige caneta esferográfica de tinta azul ou preta, indelével, e trata o texto a lápis como não escrito. Use lápis apenas no rascunho, quando a banca permite, e leve duas canetas para a prova. Confira no edital do seu concurso a cor e o tipo exigidos.
copiar trecho do texto de apoio zera a redação
Cópia extensa dos textos motivadores aparece como causa de anulação em muitos editais. Mesmo quando não anula, as linhas copiadas são desconsideradas na contagem, o que pode jogar o seu texto para baixo do mínimo. Use os textos de apoio como ponto de partida e escreva a ideia com as suas próprias palavras.
letra feia zera a redação de concurso
Letra feia, não. Letra ilegível, sim: quando quem corrige não consegue ler trechos do texto, a redação pode ser anulada por ilegibilidade. Entre um extremo e outro existe o desconto silencioso, porque palavra decifrada com esforço não convence. Escreva as três primeiras linhas devagar e chegue à folha definitiva com tempo de sobra.
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